Crime organizadoRodrigo Bacellar

Bacellar, apoiado por Flávio, liderava "núcleo político" do CV, diz PF

O relatório final da PF põe o ex-presidente da Alerj na liderança do braço político do Comando Vermelho; Flávio o apoiava para suceder Castro.

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Rodrigo Bacellar, de terno cinza e gravata azul, fala a um microfone da TV Alerj diante da escadaria do Palácio Tiradentes.
Rodrigo Bacellar, então deputado estadual, dá entrevista à TV Alerj em frente ao Palácio Tiradentes, no Rio, na posse de Cláudio Castro, em janeiro de 2023 (foto de arquivo).Foto: TV Alerj / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

O relatório final da Polícia Federal (PF) sobre Rodrigo Bacellar (União) usa uma expressão que nenhum candidato da lei e ordem gostaria de ver ao lado de um aliado. Segundo a PF, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) ocupava a liderança do “núcleo político” do Comando Vermelho (CV). A informação foi publicada pelo Jornal do Brasil em fevereiro de 2026.

Bacellar era o nome que Flávio Bolsonaro (PL) apoiava para o Rio. Em maio de 2025, o senador sinalizou apoio a ele como sucessor do governador Cláudio Castro, segundo o Diário do Rio. Bacellar era o candidato que o PL planejava lançar ao governo do estado.

O que a PF diz

A acusação central é de vazamento. Segundo a PF, Bacellar passou ao CV informações sobre a Operação Zargun, uma ação policial contra a facção. Em fevereiro de 2026, a PF o indiciou, ou seja, concluiu o inquérito apontando-o como suspeito.

Depois vieram outras etapas. Bacellar foi denunciado por obstrução, o que significa que passou a responder a uma acusação formal na Justiça. Em março, voltou a ser preso. Ele não foi julgado, e seus advogados chamam a acusação de arbitrária.

A expressão “núcleo político” é da própria PF. Ela descreve, na leitura dos investigadores, a função que Bacellar exerceria dentro da facção. Não se trata de um soldado armado na favela. O acusado é um político que presidiu a Assembleia de um estado inteiro.

É essa diferença que importa para a segurança pública. Uma facção que só tem fuzis pode ser enfrentada pela polícia na rua. Uma facção que, segundo a investigação, tem acesso à cúpula da Assembleia joga em outro tabuleiro. Ela pode saber antes o que a polícia vai fazer.

O Rio conhece o preço desse jogo. Em outubro de 2025, quatro policiais morreram numa megaoperação contra o CV no estado. O próprio Flávio arrecadou cerca de R$ 872 mil para as famílias deles, segundo o Diário do Rio. Quem sobe o morro depende de sigilo para voltar para casa.

O apoio e o padrão do TSE

O plano de governo de Flávio, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), promete declarar o CV, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e as milícias “narcoterroristas”. Promete também bloquear os bens dessas organizações e cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador.

O contraste é o ponto central desta reportagem. O candidato que promete tratar o CV como terrorista apoiava para o governo do Rio o político que a PF aponta como líder do braço político da mesma facção.

A cronologia é simples: em maio de 2025, o apoio de Flávio; em fevereiro de 2026, o indiciamento pela PF; em março, a nova prisão. O apoio veio antes do indiciamento, é verdade. Mas a pergunta sobre o critério de escolha continua de pé.

Há também um limite que precisa ficar claro. Nenhuma prova documentada liga Flávio pessoalmente ao CV. Nesta quinta-feira (15), o TSE manteve a remoção de uma publicação que associava Flávio a organizações criminosas, por falta de base factual. O PL afirma que o inquérito relacionado foi arquivado em 2022.

O tribunal aplicou a mesma régua nos dois sentidos. Uma semana antes, em 8 de outubro, o TSE havia mandado apagar posts do próprio Flávio que ligavam Lula ao PCC e ao CV, pelo mesmo motivo. A regra vale para todos: acusação sem fato não se sustenta. Por isso, este jornal fala em aliados acusados, sempre segundo a PF.

O que diz a defesa de Rodrigo Bacellar: Os advogados de Bacellar classificam a acusação como arbitrária, segundo as reportagens sobre o caso. Ele não foi julgado. Indiciamento e denúncia são etapas da investigação e do processo, não condenação.

Este jornal se faz três perguntas diante de qualquer política de segurança: o que funciona, o que custa e quem responde. Aqui, a terceira pergunta é a mais incômoda. A dez dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro, o eleitor sabe quem Flávio queria no Palácio Guanabara. Segundo a PF, era o homem que liderava o “núcleo político” do CV.

Fontes