Opinião

Bandido bom é bandido preso, inclusive quando é aliado

A colunista argumenta: a direita que grita lei e ordem não pode aceitar homenagem a PM preso, aliado preso pela PF e 'detalhezinho' na marcação de munição.

Opinião. Este artigo reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Ordem e Progresso.

Policiais militares fardados em atividade em via pública do Setor Comercial Sul, em Brasília.
Policiais militares do 1º Batalhão da PM do Distrito Federal durante a implantação do policiamento por unidade de vizinhança na Asa Sul, em Brasília, em fevereiro de 2015 (foto de arquivo).Foto: Andre Borges / Agência Brasília / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A frase é velha, e é nossa: bandido bom é bandido preso. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, a repetimos com orgulho, porque ela diz que a lei vale para todos. Só que a frase não tem asterisco. Ou ela vale também para o aliado do candidato que diz carregar a nossa bandeira, ou nunca valeu.

Na sabatina da TV Globo de 16 de outubro, Flávio Bolsonaro disse que ficou surpreso com as prisões de aliados no Rio de Janeiro. Eu cobro segurança há anos e não vejo surpresa nenhuma nessa história. Vejo um padrão, documento por documento.

A medalha, o aliado e o cartucho

Em 2003, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro deu moção de louvor ao policial militar Adriano da Nóbrega. Em 2005, com o PM preso preventivamente, acusado de homicídio, Flávio propôs a Medalha Tiradentes para ele, a maior condecoração da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). A história foi contada pela revista Exame. Anos depois, o Ministério Público apontou Nóbrega como chefe de milícia.

Em abril de 2026, já pré-candidato à Presidência, Flávio gravou vídeo de apoio a Márcio Canella ao Senado: “apoio integral, 100%”. Em julho, a mãe de Flávio, Rogéria, chegou a anunciar que seria suplente de Canella; depois recuou. No dia 15 de outubro, a Polícia Federal prendeu Canella. Segundo a PF, o ex-prefeito de Belford Roxo liderava um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões por meio de postos de combustíveis entre 2020 e 2026.

Há também Rodrigo Bacellar. Flávio sinalizou apoio a ele como sucessor de Cláudio Castro no governo do Rio em maio de 2025, quando o PL o preparava como candidato a governador. A PF indiciou Bacellar em fevereiro de 2026, sob suspeita de vazar dados da Operação Zargun ao Comando Vermelho (CV). O relatório final da polícia o aponta como liderança do “núcleo político” da facção. Os advogados dele chamam a ação de arbitrária.

E há o cartucho. Perguntado na sabatina sobre o PL 3.723/2019, que acaba com a marcação de munição, Flávio chamou o ponto de “detalhezinho”. Marcação é o que permite rastrear a munição de um crime, inclusive o desvio de partidas de estoques do Estado. Ele pediu pressa para votar esse projeto na comissão em 2022. Para a polícia que investiga, não é detalhe: é pista.

O rótulo e os limites

Por isso escrevo, como opinião: Flávio Bolsonaro é uma falsa direita na pauta de lei e ordem. A medalha ao PM preso está documentada pela Exame. O “apoio integral, 100%” está em vídeo. O indiciamento de Bacellar está no relatório da PF. O “detalhezinho” está na sabatina. O fato ao lado é o que torna o rótulo forte.

Que fique claro o que eu não afirmo. Não há, em investigação conhecida, prova que ligue Flávio pessoalmente ao CV ou ao PCC. Os acusados são aliados dele, sob acusação da PF. Investigação não é denúncia; denúncia não é condenação. O Tribunal Superior Eleitoral, aliás, manteve em 15 de outubro a remoção de um post que associava o candidato ao CV, por falta de base factual.

Kim Kataguiri, que se recusa a apoiar Flávio no segundo turno, já resumiu o problema: “A direita brasileira não pode ser refém de bandido.” Eu assino embaixo, e acrescento o óbvio: refém de bandido, a direita também não pode ser refém de candidato.

Não peço que ninguém goste de Lula; este colunista não faz esse pedido. Peço apenas que a direita não entregue a sua bandeira mais cara a quem mede a lei com dois padrões. O segundo turno é no domingo, 25 de outubro. Bandido bom é bandido preso. Inclusive quando é aliado.

O que diz Flávio Bolsonaro: Na sabatina de 16 de outubro, o candidato disse que as prisões o surpreenderam e que os acusados têm direito de defesa e de provar a inocência. Quem tiver envolvimento comprovado com PCC ou CV, disse ele, “tem que pagar dentro da lei”. Como advogado, sustenta que defender acusados é um direito que não pode ser criminalizado.

Fontes