Megapresídio para o soldado, promessa vaga para o operador financeiro
O plano de Flávio detalha presídios e confronto para o crime armado, mas oferece só apelos ao mercado contra quem lava o dinheiro das facções.
Opinião. Este artigo reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Ordem e Progresso.

O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) sabe exatamente o que fazer com o soldado do tráfico. Para ele, há cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador e 500 mil novas vagas prisionais. Há o fim da progressão de pena para crimes hediondos e a maioridade penal reduzida para 16 anos. E há a promessa de que o criminoso com fuzil será “abatido”.
Para o operador financeiro do crime, o plano tem menos. Tem apelos ao mercado, sem medidas concretas de fiscalização. Nós, que defendemos a polícia e a punição certa, deveríamos estranhar essa diferença.
O dinheiro que sustenta o fuzil
Facção não vive de fuzil. Vive de dinheiro, e o dinheiro precisa ser lavado para virar casa, carro, empresa e influência. Quem já viu uma investigação séria sabe que o golpe mais duro no crime organizado é o que atinge essa engrenagem.
O Brasil viu isso em agosto de 2025. A Operação Carbono Oculto cumpriu mais de 350 mandados em oito estados contra o dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo as autoridades, mais de mil postos de combustível movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma única fintech, que funcionava como banco paralelo, movimentou mais de R$ 46 bilhões.
Depois da operação, a Receita Federal admitiu que a revogação, em janeiro de 2025, da regra que obrigava fintechs a reportar movimentações havia enfraquecido a fiscalização. A regra voltou. O Banco Central também limitou a R$ 15 mil o Pix e a TED de empresas de pagamento sem autorização.
Era o momento de um candidato da lei e da ordem dizer o que faria com isso. Flávio disse pouco. Não foi encontrada posição dele sobre a revogação da regra das fintechs. Também não foi encontrada sobre os poderes do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o órgão que identifica movimentações suspeitas, nem sobre projetos que regulam o setor.
O apelo na Faria Lima
Em 18 de junho, Flávio foi à Faria Lima, o centro financeiro de São Paulo. Pediu ao mercado que ajudasse a asfixiar financeiramente os grupos que chama de narcoterroristas. Seu aliado Derrite mirou as fintechs de fachada. Segundo a Gazeta do Povo, nenhuma medida concreta foi apresentada para o Coaf, a Receita ou as fintechs.
Duro na favela, vago na Faria Lima. A frase resume um plano que gasta detalhe com cadeia e economiza detalhe com investigação financeira. E pesquisadores ouvidos pelo Bem Paraná, como Paiva, da Universidade Federal do Ceará (UFC), e Grillo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), chamam o pacote de populismo penal. Para eles, prender adolescentes alimenta as facções.
Há fatos a favor de Flávio, e quem esconde fatos perde a razão. Ele votou a favor do PL Antifacção, aprovado por 64 a 0 no Senado em dezembro de 2025. Especialistas veem valor no rótulo de terrorismo para facilitar o bloqueio de bens. E nenhuma reportagem liga o dinheiro de Flávio ao PCC.
O problema é de prioridade, e ela aparece até entre os aliados. Segundo a Polícia Federal (PF), Márcio Canella, a quem Flávio deu “apoio integral, 100%”, liderou um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões por meio de postos de combustível. É outro caso, distinto da Carbono Oculto: Canella foi preso em 15 de outubro e ainda não foi julgado. Uma das acusações mais pesadas contra um aliado do candidato, portanto, é de crime financeiro.
Chamamos isso de falsa direita: muita força contra quem está embaixo, pouca disciplina contra quem organiza o dinheiro em cima. A direita que defende a polícia sabe que o soldado preso é substituído no dia seguinte. O operador financeiro, não.
O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato pediu ao mercado financeiro que ajude a asfixiar as finanças dos grupos que chama de narcoterroristas, e seu plano prevê o bloqueio de bens do PCC, do CV e das milícias. Ele votou a favor do PL Antifacção no Senado.
Ninguém precisa mudar de lado para cobrar isso no domingo (25). Basta pedir a Flávio o que ele pede à favela: detalhe, número e prazo. Megapresídio sem investigação financeira é prender o soldado e deixar o caixa aberto.
Fontes
- Segurança pública: veja as propostas de Flávio na íntegra — SBT News
- Postos, fintechs e portos: saiba quais foram os alvos da PF — Poder360
- Receita voltará a exigir declaração de fintechs após operações da PF — Agência Brasil
- Banco Central aperta regras para fintechs para inibir crime organizado — CNN Brasil
- Flávio mira fintechs de fachada contra o crime organizado na Faria Lima — Gazeta do Povo
- Plano de Flávio Bolsonaro “desconhece o sistema de segurança pública”, dizem especialistas — Bem Paraná/Folhapress
- Veja os senadores que garantiram votação unânime do PL Antifacção — Gazeta do Povo
- Os elogios de Flávio Bolsonaro a Márcio Canella, preso pela PF — CartaCapital



