Crime organizado

Lei e ordem: Flávio deu "apoio integral, 100%" a aliado preso pela PF

Análise do registro do candidato: apoio integral a Márcio Canella, preso pela PF em 15 de outubro, e apoio a Bacellar, indiciado por vazamento ao CV.

O senador Flávio Bolsonaro concedendo entrevista.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje candidato à Presidência, em entrevista no Senado Federal, em Brasília, em 12 de maio de 2022 (foto de arquivo).Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 15 de outubro, a Polícia Federal prendeu Márcio Canella, aliado que Flávio Bolsonaro abraçou em público seis meses antes. Em vídeo de abril de 2026, quando Canella ainda era prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado, o candidato declarou “apoio integral, 100%” ao amigo. A prisão ocorreu dez dias antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Segundo a PF, Canella liderava um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões por meio de postos de combustíveis entre 2020 e 2026. A operação também registrou áudios de um capitão da Polícia Militar negociando barricadas com líderes do Comando Vermelho (CV) e alegando influência sobre a prefeitura da cidade. A mesma apuração, segundo o TMC, investiga vínculos de Canella com a milícia e acordos com o CV. Canella é acusado, não condenado. Nenhuma defesa dele foi localizada nas coberturas do caso.

A ficha e o discurso

A história não começa em Canella. Em maio de 2025, Flávio sinalizou apoio a Rodrigo Bacellar como sucessor de Cláudio Castro no governo do Rio, reportou o Diário do Rio. O PL chegou a preparar Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), como candidato a governador. A PF o indiciou em fevereiro de 2026, sob suspeita de vazar dados da Operação Zargun ao CV, denunciou-o por obstrução e o prendeu de novo em março.

No relatório final, segundo o JB, a PF aponta Bacellar como liderança do “núcleo político” do CV. Na leitura da corporação, o ex-presidente da Alerj cuidava da articulação política da facção. Os advogados dele chamam a ação de arbitrária. Em julho, a mãe de Flávio, Rogéria, chegou a anunciar que seria suplente de Canella, e recuou.

É esse registro que contrasta com o discurso. O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) propõe declarar PCC, CV e milícias organizações narcoterroristas, com os bens bloqueados. O texto prevê ainda que criminosos armados com fuzil sejam “abatido”. O programa inclui cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador e o fim da progressão de regime para crimes hediondos.

O candidato que promete guerra às facções apoiou, meses antes, dois nomes que a PF agora acusa de servir a uma delas, segundo os relatórios da corporação. Entre o vídeo de abril e a prisão de Canella, passaram-se menos de sete meses. Flávio também votou a favor do PL Antifacção, aprovado no Senado por 64 a 0 em dezembro de 2025, a mesma lei que endurece o enfrentamento a esses grupos.

O que a investigação não diz

A fronteira factual precisa ser dita com clareza. Não há, nas investigações conhecidas, prova que ligue Flávio pessoalmente ao CV ou ao PCC. No dia 15 de outubro, o TSE manteve a remoção de um post que associava o candidato à facção, por falta de base factual. O mesmo tribunal mandou apagar, em 8 de outubro, posts do próprio Flávio que ligavam Lula ao PCC e ao CV, pelo mesmo motivo.

Bacellar é acusado, indiciado e preso, mas não condenado. Canella é acusado, não condenado. Investigação, denúncia e condenação são etapas diferentes, e cada caso seguirá seu curso na Justiça.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em sabatina à TV Globo em 16 de outubro, o candidato disse que as prisões o surpreenderam e que os acusados têm direito de defesa. Quem tiver envolvimento comprovado com PCC ou CV, disse ele, “tem que pagar dentro da lei”.

Faltam cinco dias para o segundo turno. O eleitor que vota em segurança pública terá de pesar a promessa de rigor contra a ficha de escolhas do candidato. O plano promete tratar bandido armado como inimigo; nos autos da PF, os aliados que Flávio escolheu apoiar aparecem como suspeitos de trabalhar para a facção.

As prisões mostraram que a Polícia Federal não pede licença partidária para agir. A pergunta do domingo 25 é outra: em quem o eleitor de lei e ordem confia o comando dessa política. A ficha de escolhas de cada candidato é o único registro disponível até lá.

Fontes