Lei e ordem: Flávio deu "apoio integral, 100%" a aliado preso pela PF
Análise do registro do candidato: apoio integral a Márcio Canella, preso pela PF em 15 de outubro, e apoio a Bacellar, indiciado por vazamento ao CV.

Em 15 de outubro, a Polícia Federal prendeu Márcio Canella, aliado que Flávio Bolsonaro abraçou em público seis meses antes. Em vídeo de abril de 2026, quando Canella ainda era prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado, o candidato declarou “apoio integral, 100%” ao amigo. A prisão ocorreu dez dias antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Segundo a PF, Canella liderava um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões por meio de postos de combustíveis entre 2020 e 2026. A operação também registrou áudios de um capitão da Polícia Militar negociando barricadas com líderes do Comando Vermelho (CV) e alegando influência sobre a prefeitura da cidade. A mesma apuração, segundo o TMC, investiga vínculos de Canella com a milícia e acordos com o CV. Canella é acusado, não condenado. Nenhuma defesa dele foi localizada nas coberturas do caso.
A ficha e o discurso
A história não começa em Canella. Em maio de 2025, Flávio sinalizou apoio a Rodrigo Bacellar como sucessor de Cláudio Castro no governo do Rio, reportou o Diário do Rio. O PL chegou a preparar Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), como candidato a governador. A PF o indiciou em fevereiro de 2026, sob suspeita de vazar dados da Operação Zargun ao CV, denunciou-o por obstrução e o prendeu de novo em março.
No relatório final, segundo o JB, a PF aponta Bacellar como liderança do “núcleo político” do CV. Na leitura da corporação, o ex-presidente da Alerj cuidava da articulação política da facção. Os advogados dele chamam a ação de arbitrária. Em julho, a mãe de Flávio, Rogéria, chegou a anunciar que seria suplente de Canella, e recuou.
É esse registro que contrasta com o discurso. O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) propõe declarar PCC, CV e milícias organizações narcoterroristas, com os bens bloqueados. O texto prevê ainda que criminosos armados com fuzil sejam “abatido”. O programa inclui cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador e o fim da progressão de regime para crimes hediondos.
O candidato que promete guerra às facções apoiou, meses antes, dois nomes que a PF agora acusa de servir a uma delas, segundo os relatórios da corporação. Entre o vídeo de abril e a prisão de Canella, passaram-se menos de sete meses. Flávio também votou a favor do PL Antifacção, aprovado no Senado por 64 a 0 em dezembro de 2025, a mesma lei que endurece o enfrentamento a esses grupos.
O que a investigação não diz
A fronteira factual precisa ser dita com clareza. Não há, nas investigações conhecidas, prova que ligue Flávio pessoalmente ao CV ou ao PCC. No dia 15 de outubro, o TSE manteve a remoção de um post que associava o candidato à facção, por falta de base factual. O mesmo tribunal mandou apagar, em 8 de outubro, posts do próprio Flávio que ligavam Lula ao PCC e ao CV, pelo mesmo motivo.
Bacellar é acusado, indiciado e preso, mas não condenado. Canella é acusado, não condenado. Investigação, denúncia e condenação são etapas diferentes, e cada caso seguirá seu curso na Justiça.
O que diz Flávio Bolsonaro: Em sabatina à TV Globo em 16 de outubro, o candidato disse que as prisões o surpreenderam e que os acusados têm direito de defesa. Quem tiver envolvimento comprovado com PCC ou CV, disse ele, “tem que pagar dentro da lei”.
Faltam cinco dias para o segundo turno. O eleitor que vota em segurança pública terá de pesar a promessa de rigor contra a ficha de escolhas do candidato. O plano promete tratar bandido armado como inimigo; nos autos da PF, os aliados que Flávio escolheu apoiar aparecem como suspeitos de trabalhar para a facção.
As prisões mostraram que a Polícia Federal não pede licença partidária para agir. A pergunta do domingo 25 é outra: em quem o eleitor de lei e ordem confia o comando dessa política. A ficha de escolhas de cada candidato é o único registro disponível até lá.
Fontes
- ‘Competente’, ‘amigo’, ‘sabe trabalhar’: os elogios de Flávio Bolsonaro a Márcio Canella, preso pela PF — CartaCapital
- Canella é investigado por vínculo com milícia e acordos com o Comando Vermelho — TMC
- Com apoio de Flávio Bolsonaro, Bacellar ganha força como sucessor de Castro no RJ — Diário do Rio
- Bacellar e TH Joias são indiciados por vazamento de dados ao CV — Poder360
- Bolsonarista Bacellar atua como liderança do núcleo político do Comando Vermelho, diz Polícia Federal — JB
- Flávio diz que foi surpreendido com prisões de Canella e Bacellar — CNN Brasil
- TSE mantém remoção de publicação que associa Flávio Bolsonaro a organizações criminosas — TSE



