Segurança pública

"Abatido": a palavra do plano de Flávio para criminosos de fuzil

O plano diz que "bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido"; a promessa de resultado colide com as regras que disciplinam o uso da força.

Policiais do CORE em varredura no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, durante operação de busca a traficantes, drogas e armas.
Policiais da Coordenação de Recursos Especiais (CORE) fazem varredura no primeiro dia de ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em novembro de 2010 (foto de arquivo); a imagem não retrata situação citada no texto.Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

O plano de governo que Flávio Bolsonaro (PL) registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promete um resultado, não uma conduta. No capítulo sobre crime organizado, o texto diz: “Bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido pelas forças de segurança.” A frase está na página 13 do documento, transcrito pelo SBT News.

Na mesma página, o plano declara que o PCC (Primeiro Comando da Capital), o Comando Vermelho (CV) e as milícias serão tratados como “organizações narcoterroristas”, com bloqueio de ativos. O restante do capítulo de segurança segue a mesma lógica. Ele reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos, propõe cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador e promete 500 mil novas vagas prisionais em quatro anos.

Uma promessa de resultado

O problema central está no verbo. As regras de uso da força no Brasil disciplinam condutas: dizem quando o policial pode atirar, com qual arma e contra qual ameaça. A palavra “abatido” promete um desfecho. Ela escreve de antemão como o confronto termina, antes de ele existir.

Como este jornal já mostrou, a Lei 13.060, de 2014, e o Decreto 12.341, de 2024, fazem da arma de fogo o último recurso. As normas vetam tiro contra pessoa em fuga que esteja desarmada e exigem resposta proporcional ao risco. Nenhuma delas promete que a operação termina com o suspeito morto.

Imagine a cena que o plano antecipa: um criminoso com fuzil encurralado por policiais. A lei autoriza o tiro necessário e proporcional. E o proíbe quando o risco acaba, por exemplo se o suspeito se rende ou fica ferido. O plano diz que ele “vai ser abatido”. A promessa não vira regra. Vira pressão sobre quem executa.

Essa pressão desce para quem puxa o gatilho. O policial que atira responde caso por caso, sob as regras em vigor, não sob o parágrafo de um plano. Se algo der errado, quem responde na Justiça é o oficial de frente. A frase dura ficou no papel; a responsabilidade fica na rua.

Há também o silêncio do plano diante dos outros desfechos. O suspeito pode se render; pode estar ferido; pode estar desarmado no momento do cerco. A lei cobre todas as hipóteses. O verbo “abatido” prevê uma só — e não diz o que acontece quando ela não se cumpre.

As regras também cobrem o depois, como este jornal explicou: socorro médico imediato, perícia no local e comunicação na hora ao Ministério Público quando alguém se fere ou morre. O registro do confronto continua sendo a prova que protege o policial — e a família da vítima. A promessa de “abatido” não substitui nenhum desses passos.

O plano cala sobre armas civis — e o candidato fala

Segundo o SBT News, o documento promete “armamentos de última geração” para as polícias e “armas de guerra” na fronteira. Não há proposta específica sobre acesso da população civil a armas. O plano trata do arsenal do Estado, não do cidadão.

Fora do papel, o candidato diz outra coisa. Em 7 de outubro, ao responder à Folha de S.Paulo sobre ampliar o acesso a armas para defesa pessoal, Flávio afirmou: “Legítima defesa tem que voltar, né? Só quem tá armado é bandido.”

A combinação merece atenção. Um plano que escreve o desfecho do confronto e um discurso que promete mais armas em circulação apontam para o mesmo lugar: mais encontros armados. Quem trabalha na rua conhece a conta — cada arma a mais é mais risco em cada abordagem, mais tiro e mais inquérito de letalidade.

Curiosamente, onde o dinheiro está, o plano descreve um processo: seguir o dinheiro do crime, bloquear ativos, desarticular a lavagem. Onde a vida está, descreve um resultado: abatido. Um plano de Estado deveria fazer o contrário — prometer processos verificáveis, não desfechos.

No dia 25 de outubro, o eleitor escolhe o próximo presidente com este plano na mesa. A pergunta deste jornal é sempre a mesma: o que funciona, o que custa e quem responde. Na página 13, uma palavra responde as três perguntas de uma vez. Nenhuma regra de uso da força sustenta essa resposta.

O que diz Flávio Bolsonaro: O senador defende que criminosos armados devem ser confrontados com o uso de força pelas polícias — e que a defesa técnica é um direito de qualquer acusado. O plano promete combater as facções “com força, inteligência e integração”, prendendo líderes e bloqueando seus ativos.

Fontes