Segurança pública

Após a megaoperação no Rio, Flávio volta a defender bombardear barcos

Depois da operação contra o CV em que quatro policiais morreram, o senador retomou a ideia de bombardear barcos do tráfico e arrecadou R$ 872 mil às famílias.

Navio-patrulha oceânico Apa, da Marinha do Brasil, navegando durante patrulhamento marítimo no litoral do Rio de Janeiro.
O navio-patrulha oceânico Apa, da Marinha do Brasil, em patrulhamento marítimo do litoral do Rio de Janeiro, em novembro de 2024 (foto de arquivo); a imagem não retrata operação citada no texto.Foto: Marinha do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Depois da megaoperação contra o Comando Vermelho (CV) no Rio de Janeiro, em outubro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltou a defender uma ideia antiga: bombardear os barcos do tráfico. Na operação, quatro policiais morreram.

O senador usou a ocasião para defender de novo a proposta. E lançou uma vaquinha online para as famílias dos quatro policiais mortos. A arrecadação superou a meta inicial de R$ 400 mil em poucas horas e chegou a cerca de R$ 872 mil, segundo o Diário do Rio.

A ideia e a ocasião

Bombardear embarcações é uma proposta que Flávio já defendia antes daquela operação. A megaoperação no Rio serviu de palco para repeti-la em público. Como proposta de governo, a ideia precisa responder perguntas que o palanque não responde: quantos barcos, quais rotas, quem autoriza cada disparo — e com qual regra.

A retomada não surgiu do nada. O plano de governo do candidato promete que “bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido pelas forças de segurança”. Ele classifica PCC, CV e milícias como “organizações narcoterroristas”, com bloqueio de ativos. Bombardear barcos é a versão naval da mesma lógica de força.

A arrecadação para as famílias merece registro à parte. Mais de R$ 870 mil em poucos dias é um gesto concreto, e o gesto é do candidato que hoje disputa o segundo turno. O mesmo episódio, porém, produziu também a defesa do bombardeio. Os dois fatos dizem respeito ao mesmo tema: o que o Estado pode fazer, e a quem ele responde, quando o crime mata policiais.

As regras que existem

Quem executaria a ordem? Em águas brasileiras, patrulhar é atribuição da Marinha. As regras para o emprego dos militares na segurança pública o leitor já conhece. Na Garantia da Lei e da Ordem (GLO), a atuação é exceção, com área e prazo definidos. Os militares, nela, fazem policiamento sob as regras que valem para as polícias. Fora dela, o emprego das Forças Armadas é a defesa da pátria — não o combate ao crime comum.

Bombardear não é policiamento. É uso de força de guerra contra alvos tripulados por civis. Em abril de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou as regras da GLO por unanimidade: as Forças Armadas não são um “poder moderador” acima dos demais Poderes. Uma política de bombardeio abriria um caminho que essas normas não descrevem — e que nenhum decreto presidencial pode criar sozinho.

O custo do erro pesa. Uma bomba não distingue traficante de pescador, de piloto de barco de passageiros ou de criança a bordo. Não há tiro de aviso em uma bomba, e o erro não tem volta. Quem responde por ele é a cadeia de comando que autorizou o disparo — não o palanque que prometeu.

Escalar o confronto sem regra também expõe quem executa. Quem opera nas águas da Baía de Guanabara trabalha com protocolo, registro e responsável identificado. Uma promessa de bombardeio não tem nenhum dos três. Presidente não baixa bomba por decreto: qualquer medida nessa direção exigiria autorização legal, regras de engajamento escritas e comando identificável. O eleitor deveria pedir para ver as três coisas.

No dia 25 de outubro, a ideia pode sair do palanque e virar política de Estado. Antes disso, o eleitor que acompanha o trabalho policial deveria exigir as respostas de sempre: o que funciona, o que custa e quem responde. “Bombardear barcos” responde as três perguntas com uma frase — e nenhuma delas de verdade.

O que diz Flávio Bolsonaro: O senador sustenta que criminosos armados devem ser confrontados com o uso de força pelas forças de segurança. Depois da megaoperação, ele organizou a arrecadação de cerca de R$ 872 mil para as famílias dos quatro policiais mortos, segundo o Diário do Rio.

Fontes