Crime organizadoMárcio Canella

A prisão de Canella, aliado de Flávio, a dez dias do segundo turno

A PF prendeu o ex-prefeito de Belford Roxo, acusado de liderar lavagem de R$ 7,6 bilhões; em abril, Flávio lhe deu "apoio integral, 100%".

Publicado em
Leitura
3 min de leitura
Agentes da Polícia Federal, de colete com a inscrição Federal, carregam malote da PF em frente a elevadores de um prédio.
Agentes da Polícia Federal durante a Operação Calicute, em novembro de 2016 (foto de arquivo); a imagem não retrata a prisão de Márcio Canella.Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Nesta quinta-feira (15), a Polícia Federal (PF) prendeu Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e deputado eleito. Segundo a PF, ele liderou um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões por meio de postos de combustível, entre 2020 e 2026. A prisão acontece a dez dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Canella não é um nome distante da campanha presidencial. Em abril de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) declarou “apoio integral, 100%” à candidatura dele ao Senado. Em julho, Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, chegou a anunciar que seria suplente de Canella. Depois, desistiu.

O suplente é quem assume a cadeira no Senado quando o titular se afasta. Na prática, a mãe do candidato a presidente se apresentou para dividir a chapa com o político que a PF acaba de prender.

O que a PF aponta

A acusação principal é de lavagem de dinheiro. Lavar dinheiro é dar aparência legal a recursos de origem criminosa, fazendo o valor circular por negócios que parecem normais. Segundo a PF, os postos de combustível cumpriam esse papel no esquema atribuído ao grupo de Canella.

O tamanho do valor ajuda a entender o caso. Em média, é mais de R$ 1 bilhão por ano no período investigado, entre 2020 e 2026.

Há um segundo elemento, ainda mais sensível para quem acompanha segurança pública. Segundo a PF, um áudio registra um capitão da polícia negociando barricadas com chefes do Comando Vermelho (CV). Na gravação, o capitão diz ter influência sobre a prefeitura de Canella.

Para quem veste a farda, esse é o trecho mais grave. Barricadas são as estruturas que facções erguem nas ruas para impedir a entrada de viaturas. Negociá-las com o crime é o oposto do trabalho policial. E quem paga a conta é o policial honesto, que terá de enfrentá-las na próxima operação.

Essas são acusações, e precisam ser tratadas como tal. Prisão não é condenação. Canella tem direito a defesa, e as acusações ainda terão de ser provadas na Justiça. Até aqui, nenhuma manifestação da defesa foi localizada nas reportagens sobre o caso.

Por que a prisão pesa na eleição

Flávio construiu a campanha sobre a segurança pública. O plano de governo que ele registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promete tratar o CV, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e as milícias como “narcoterroristas”. Promete bloquear os bens dessas organizações e cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador.

O mesmo plano diz que criminoso armado com fuzil será “abatido”. É a linguagem mais dura da disputa. E é por isso que o caso Canella incomoda. O aliado que recebeu apoio “integral” do candidato da lei e ordem foi preso pela PF por suspeita de comandar um esquema bilionário.

Canella também não é o único. Rodrigo Bacellar (União), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, era o nome que Flávio apoiava para suceder o governador Cláudio Castro. Segundo a PF, Bacellar vazou ao CV informações de uma operação policial. Ele foi indiciado em fevereiro e voltou a ser preso em março.

Há um limite que este jornal mantém. Nenhuma prova documentada liga Flávio pessoalmente ao CV. Em 8 de outubro, o TSE mandou apagar posts do próprio Flávio que associavam Lula ao PCC e ao CV sem base factual. O mesmo padrão vale para ele: os acusados são aliados, e as acusações são da PF.

O que diz a defesa de Márcio Canella: Nas reportagens sobre a prisão consultadas por este jornal, não há manifestação da defesa de Canella sobre as acusações da PF. O espaço segue aberto.

A prisão abre uma pergunta que a campanha de Flávio terá de responder antes de 25 de outubro. Um candidato que pede o comando da segurança pública do país deu “apoio integral, 100%” a quem a PF acusa de lavar bilhões. Para o eleitor que leva a lei e a ordem a sério, a escolha de aliados também é plano de governo.

Fontes