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R$ 7,6 bilhões em postos: a acusação da PF contra o aliado de Flávio

Segundo a PF, Márcio Canella liderou um grupo que lavou dinheiro por meio de postos de combustível; o plano de Flávio é vago contra o crime financeiro.

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Detalhe de uma bomba de combustível com as etiquetas Etanol e Gasolina Aditivada e o teclado de pagamento.
Bomba de combustível em um posto de Brasília, em fevereiro de 2015 (foto de arquivo); a imagem não retrata os postos citados na investigação.Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Cerca de R$ 7,6 bilhões. Segundo a Polícia Federal (PF), esse é o valor que um grupo liderado por Márcio Canella (União) lavou por meio de postos de combustível, entre 2020 e 2026. Ex-prefeito de Belford Roxo e deputado eleito, Canella foi preso pela PF na quinta-feira (15).

Em abril, Flávio Bolsonaro (PL) declarou “apoio integral, 100%” à candidatura de Canella ao Senado. Em julho, a mãe de Flávio, Rogéria Bolsonaro, chegou a anunciar que seria suplente do aliado. Depois, desistiu.

Por que postos de combustível

Lavar dinheiro é dar aparência legal a recursos de origem criminosa. O dinheiro sujo entra num negócio que parece normal e sai dele como se fosse lucro limpo. Para isso, o crime procura empresas que movimentam muito dinheiro todos os dias.

Postos de combustível se encaixam nesse perfil. Vendem para muita gente, a toda hora, em dinheiro e no cartão. Isso facilita misturar recursos de origem ilegal com o faturamento real.

O caso de Canella não é o primeiro a apontar para esse setor. Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto cumpriu mais de 350 mandados em oito estados, numa investigação sobre o dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo as autoridades, mais de mil postos movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma única fintech, que funcionava como um banco paralelo, movimentou mais de R$ 46 bilhões.

É preciso separar os dois casos. São casos distintos: a acusação contra Canella não faz parte da Carbono Oculto. A comparação serve só para mostrar a escala: o valor atribuído ao grupo de Canella equivale a cerca de um sétimo do que a Carbono Oculto rastreou nos postos.

O tamanho também impressiona sozinho. Em média, é mais de R$ 1 bilhão por ano no período investigado. Segundo a PF, a investigação reúne ainda um áudio sobre o Comando Vermelho (CV). Nele, um capitão da polícia negocia barricadas com chefes da facção e diz ter influência sobre a prefeitura de Canella.

Duro na favela, vago na Faria Lima

O plano de governo de Flávio é detalhado quando fala do crime armado. Promete tratar o CV, o PCC e as milícias como “narcoterroristas”, com bens bloqueados. Diz que criminoso com fuzil será “abatido” e propõe cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador.

Quando o assunto é o lado financeiro do crime, o tom muda. Em 18 de junho, num evento com o mercado na Faria Lima, Flávio pediu ajuda ao setor financeiro para asfixiar financeiramente os grupos que chama de narcoterroristas. Segundo a Gazeta do Povo, ele não apresentou medidas concretas para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a Receita ou as fintechs.

O contraste fica nítido diante do caso Canella. Contra o soldado da favela, o plano promete força. Contra a engrenagem que faz o dinheiro circular, oferece apelos. E a acusação mais pesada contra um aliado de Flávio é, justamente, de crime financeiro.

Há fatos a favor do candidato, e eles precisam estar aqui. Flávio votou a favor do PL Antifacção, aprovado por 64 a 0 no Senado em dezembro de 2025. Especialistas ouvidos pelo Bem Paraná veem valor no rótulo de terrorismo para facilitar o bloqueio de bens.

Também há limites. Nenhuma reportagem liga o dinheiro de Flávio ao PCC, e nenhuma prova documentada o liga pessoalmente ao CV. Os acusados são aliados, e as acusações são da PF.

O que diz Flávio Bolsonaro: Na sexta-feira (16), Flávio disse ter sido surpreendido com as prisões de aliados no Rio. Afirmou que os acusados têm direito de defesa e que quem tiver ligação comprovada com o PCC ou o CV deve pagar “dentro da lei”, segundo o Metrópoles. Nas reportagens consultadas, não há manifestação da defesa de Canella.

Para este jornal, seguir o dinheiro é a ferramenta que mais fere uma organização criminosa. É o que fez, segundo a PF, a investigação que levou Canella à prisão. A oito dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro, o eleitor sabe o que Flávio promete para o soldado com fuzil. Ainda não sabe o que ele fará com quem lava bilhões.

Fontes