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Barricadas negociadas com o CV: o áudio da PF na cidade de Canella

Segundo a PF, um capitão da polícia negociou barricadas com chefes do Comando Vermelho e disse ter influência na prefeitura do aliado de Flávio.

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Pórtico de entrada de Belford Roxo, com a inscrição Bem vindo a Belford Roxo, sobre uma avenida com palmeiras.
Pórtico na divisa entre Belford Roxo e Mesquita, na Baixada Fluminense, em julho de 2014 (foto de arquivo).Foto: Marcos Paulo Ribeiro Lopes / Prefeitura de Belford Roxo / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Segundo a Polícia Federal (PF), um áudio registra um capitão da polícia negociando barricadas com chefes do Comando Vermelho (CV). Na gravação, o capitão afirma ter influência sobre a prefeitura de Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. A PF prendeu Canella na quinta-feira (15).

O áudio faz parte das acusações da PF contra o ex-prefeito, hoje deputado eleito. Segundo a corporação, Canella liderou um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões por meio de postos de combustível, entre 2020 e 2026. Em abril, Flávio Bolsonaro (PL) declarou “apoio integral, 100%” à candidatura dele ao Senado.

O que significa negociar uma barricada

Barricadas são as estruturas que facções erguem nas ruas para bloquear a entrada de viaturas. Elas marcam o território do crime. Cada barricada retirada é uma rua devolvida ao Estado, e cada uma que fica é uma rua onde a polícia não entra sem confronto.

Por isso, o trecho descrito pela PF é tão grave para quem acompanha o trabalho policial. Um capitão é um oficial, com comando sobre tropa. Quando um oficial negocia barricadas com chefes de facção, segundo a acusação, ele trata com o crime algo que deveria ser resolvido pela lei.

O prejuízo não fica no papel. O soldado que recebe a ordem de entrar numa rua bloqueada não sabe o que foi combinado acima dele. Ele arrisca a vida numa operação cujo resultado pode ter sido negociado antes. O policial honesto vira a primeira vítima do policial que, segundo a PF, se acertou com a facção.

Flávio conhece esse preço. Em outubro de 2025, quatro policiais morreram numa megaoperação contra o CV no Rio. Flávio arrecadou cerca de R$ 872 mil para as famílias, segundo o Diário do Rio. O gesto é real, mas a solidariedade com o policial morto também exige cuidado na escolha de quem se apoia.

A frase sobre a prefeitura agrava o quadro. O capitão diz ter influência sobre a administração de Canella. Essa é a palavra dele na gravação, não um fato provado. Mas é exatamente o tipo de afirmação que uma investigação séria precisa esclarecer até o fim.

O aliado, o candidato e o limite

Canella não era um apoio qualquer para Flávio. Além do “apoio integral, 100%” declarado em abril, a mãe de Flávio, Rogéria Bolsonaro, anunciou em julho que seria suplente do ex-prefeito na chapa ao Senado. Depois, desistiu.

Canella também não é o único aliado acusado. Rodrigo Bacellar (União), que Flávio apoiava para suceder Cláudio Castro no governo do Rio, foi indiciado pela PF em fevereiro. Segundo a PF, ele vazou ao CV informações de uma operação policial.

O plano de governo que Flávio registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promete tratar o CV como organização “narcoterrorista”. Promete bloquear os bens da facção e diz que criminoso armado com fuzil será “abatido”. As propostas listadas tratam de penas, presídios e facções.

O histórico do candidato também pesa. Em 2007, num discurso na Assembleia Legislativa do Rio, Flávio chamou as milícias de uma nova forma de policiamento. O episódio foi lembrado pelo Estadão em editorial sobre a candidatura dele.

Há um limite que este jornal respeita. Nenhuma prova documentada liga Flávio pessoalmente ao CV, nem ao capitão do áudio. Na quinta-feira (15), o TSE manteve a remoção de uma publicação que associava Flávio a organizações criminosas por falta de base factual. Os acusados são aliados, e as acusações são da PF.

O que diz a defesa de Márcio Canella: Nas reportagens sobre a prisão e o áudio consultadas por este jornal, não há manifestação da defesa de Canella sobre as acusações da PF. O espaço segue aberto.

O segundo turno é no dia 25 de outubro. Na Baixada Fluminense, a barricada não é metáfora: é o obstáculo que o policial encontra todo dia no caminho. Um candidato que promete guerra às facções precisa explicar por que deu “apoio integral” ao ex-prefeito da cidade onde, segundo a PF, um capitão negociava essas barricadas com o CV.

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