O policial honesto merece um candidato sem aliados presos
Flávio arrecadou para as famílias de policiais mortos, mas apoiou Canella e Bacellar, aliados que a PF acusa de lavagem e de vazar operação ao CV.
Opinião. Este artigo reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Ordem e Progresso.

Em outubro de 2025, quatro policiais morreram numa megaoperação contra o Comando Vermelho (CV) no Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro (PL) arrecadou cerca de R$ 872 mil para as famílias deles, segundo o Diário do Rio. O gesto foi real, e nós, que defendemos a polícia, não vamos fingir que não aconteceu.
Mas o policial honesto merece mais do que uma vaquinha. Merece um candidato que não escolha, para perto de si, quem a Polícia Federal (PF) acaba prendendo. É aí que Flávio falha, e falha com documentos.
Os aliados que a farda não merecia
Em abril de 2026, Flávio declarou “apoio integral, 100%” a Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Em julho, a mãe de Flávio chegou a anunciar que seria suplente dele. Em 15 de outubro, a PF prendeu Canella. Segundo a PF, ele liderou um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões por meio de postos de combustível.
No mesmo caso, segundo a PF, um áudio registra um capitão da polícia negociando barricadas com chefes do CV. O capitão diz ter influência sobre a prefeitura de Canella. Para quem veste a farda com honra, poucas coisas doem tanto. O policial que negocia com a facção suja o uniforme de todos os outros.
O outro nome é Rodrigo Bacellar (União), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio. Flávio o apoiava para suceder o governador Cláudio Castro. Segundo a PF, Bacellar vazou ao CV informações sobre a Operação Zargun e ocupava a liderança do “núcleo político” da facção. Ele foi indiciado em fevereiro e voltou a ser preso em março.
Todo policial sabe o que significa uma operação vazada. Significa entrar numa comunidade onde o alvo já sabe que você vem. Significa arriscar a vida por uma surpresa que não existe mais. E significa voltar para casa contando com a sorte, não com o planejamento.
Nenhum dos dois foi julgado, e ambos têm direito de defesa. Os advogados de Bacellar chamam a acusação de arbitrária. Também não há prova documentada que ligue Flávio pessoalmente ao CV.
Mas nós não estamos julgando os aliados. Estamos julgando o critério de quem os escolheu. Na política, quem pede votos para alguém empresta a ele o próprio nome. Flávio emprestou o dele a dois homens que hoje a PF acusa.
Um padrão, não um acidente
O histórico mostra que não é a primeira vez. Flávio homenageou Adriano da Nóbrega, ex-policial militar, em 2003 e em 2005. Segundo a Exame, o ex-PM estava preso quando recebeu uma das homenagens. Adriano foi depois apontado como chefe de milícia.
Em 2007, num discurso na Assembleia do Rio, Flávio chamou as milícias de uma nova forma de policiamento, segundo editorial do Estadão. E em 16 de outubro deste ano, chamou de “detalhezinho” o projeto que acaba com a marcação de munição. É a ferramenta que ajuda a descobrir de onde vem a bala que mata policiais.
É justo registrar o outro lado. Flávio votou a favor do PL Antifacção, aprovado por 64 a 0 no Senado em dezembro de 2025. O discurso dele é de apoio à polícia, e muitos policiais acreditam nele. É exatamente por respeito a esses policiais que o histórico precisa ser dito.
Chamamos isso de falsa direita. A direita de verdade separa o bom policial do mau policial, e não confunde apoio à farda com apoio a quem a mancha. Flávio veste a bandeira da lei e da ordem, mas seus aliados acusados mostram outra coisa.
O que diz Flávio Bolsonaro: Flávio disse ter sido surpreendido com as prisões de Canella e Bacellar e afirmou que os acusados têm direito de defesa. Para ele, quem tiver ligação comprovada com o PCC ou o CV deve pagar “dentro da lei”. Ele defende que o crime seja enfrentado com força pelas polícias.
No domingo (25), ninguém precisa gostar do adversário de Flávio para tomar uma decisão honesta. Basta pensar no policial que vai entrar na próxima operação sem saber se ela foi vazada. Ele merece um presidente cujo critério de escolha não termine em prisão pela PF. Entregar a bandeira da polícia a Flávio é desrespeitar quem a carrega todo dia.
Fontes
- Vaquinha de Flávio Bolsonaro para famílias de policiais mortos na megaoperação chega a quase R$ 900 mil — Diário do Rio
- Flávio diz que foi surpreendido com prisões de Canella e Bacellar — CNN Brasil
- Flávio se diz surpreso com prisão de aliados no RJ: “pagar dentro da lei” — Metrópoles
- Bacellar atua como liderança do núcleo político do Comando Vermelho, diz Polícia Federal — Jornal do Brasil
- Ex-PM estava preso quando recebeu homenagem de Flávio Bolsonaro — Exame
- Estadão diz em editorial que vitória de Flávio Bolsonaro pode colocar milicianos na Presidência — Sengerj
- Flávio chama de “detalhezinho” projeto para retirar marcação de munições — Metrópoles
- Veja os senadores que garantiram votação unânime do PL Antifacção — Gazeta do Povo



