Opinião

Polícia de verdade rastreia munição. Flávio chamou isso de "detalhezinho"

Quem defende a polícia sabe que investigação começa pela prova; Flávio tratou como detalhe o projeto que apaga o rastro da munição do crime.

Opinião. Este artigo reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Ordem e Progresso.

Senadores reunidos em torno de uma mesa em forma de U durante sessão da Comissão de Constituição e Justiça, com computadores e microfones.
Reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, em Brasília, em julho de 2024 (foto de arquivo).Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Nós, que defendemos a polícia, sabemos como se resolve um crime. Não é com discurso. É com prova: o laudo, a perícia, o celular apreendido, o cartucho recolhido no chão. Por isso, a palavra que Flávio Bolsonaro (PL) escolheu em 16 de outubro deveria incomodar todo eleitor de direita.

Numa sabatina, Flávio chamou de “detalhezinho” o Projeto de Lei (PL) 3.723/2019, que acaba com a obrigação de marcar munições. Não foi uma distração de entrevista. Em março de 2022, segundo o Congresso em Foco, ele pressionou a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado a votar o projeto rapidamente, com o texto original.

O rastro que a polícia perde

A marcação permite rastrear a origem de um lote de munição. Para o policial que investiga, é o fio que liga a bala ao caminho que ela percorreu até a mão do bandido.

Esse caminho, muitas vezes, passa pelo próprio Estado. Segundo levantamento do Instituto Sou da Paz, citado pelo Brasil de Fato, a maior parte da munição de fuzil do Comando Vermelho (CV) era brasileira. Cerca de metade tinha sinais de desvio de estoques públicos. O dado veio por um veículo de esquerda, mas o problema que ele descreve é de todos nós.

Pense no que isso significa para quem veste a farda. A munição desviada de um depósito público pode voltar contra o policial numa troca de tiros. Sem marcação, ninguém descobre onde ela escapou, e quem a desviou pode continuar no cargo. E o policial honesto continua exposto.

A marcação, aliás, protege também o bom policial. Quando a origem de cada lote é conhecida, a suspeita não recai sobre a corporação inteira. Recai sobre quem desviou. Rastreabilidade é o contrário de impunidade.

O que a direita sempre defendeu

A direita brasileira sempre disse que o crime se combate com inteligência e punição certa. Seguir o rastro é exatamente isso. Abrir mão dele em nome de um “detalhezinho” é trocar a investigação pelo improviso.

O histórico de Flávio no tema não é de descuido isolado. Em 2019, ele votou para manter os decretos do pai que facilitavam a posse e o porte de armas. O Senado derrubou os decretos por 47 votos a 28. Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) estimou que 6.379 vidas poderiam ter sido salvas entre 2019 e 2021 sem eles.

É justo reconhecer o que ele fez de duro. Flávio foi relator do projeto que restringiu as “saidinhas” de presos, aprovado por 62 a 2 em 2024. Votou a favor do PL Antifacção, aprovado por 64 a 0 em 2025. Quem nega esses fatos perde a razão no resto.

Mas ser duro com o preso não basta. O plano de governo de Flávio trata apenas das armas das polícias e promete que o criminoso com fuzil será “abatido”. Promessa de confronto sem controle da munição é força sem inteligência. É chamar de “detalhezinho” o que separa a investigação do chute.

O mesmo descuido aparece na escolha de aliados. Flávio deu “apoio integral, 100%” a Márcio Canella, preso pela Polícia Federal (PF) em 15 de outubro. Segundo a PF, Canella liderou a lavagem de cerca de R$ 7,6 bilhões por meio de postos. E Flávio apoiava Rodrigo Bacellar, que a PF acusa de vazar uma operação ao CV.

Chamamos isso de falsa direita: o discurso da ordem sem a disciplina da prova. A direita que respeita a polícia não pode aceitar que o rastro da bala seja tratado como um detalhe.

O que diz Flávio Bolsonaro: Na sabatina de 16 de outubro, Flávio tratou o projeto como um “detalhezinho”, segundo o Metrópoles. Ele defende que os criminosos sejam enfrentados com força pelas polícias. Seu histórico inclui o voto a favor do PL Antifacção e a relatoria do projeto das saidinhas.

No domingo (25), ninguém precisa mudar de lado, nem passar a gostar do adversário, para levar isso em conta. Basta perguntar o que a polícia de verdade pediria. Ela pediria perícia, inteligência e munição rastreável. Um candidato que chama isso de detalhe não merece o voto de quem defende a farda.

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