Cinco megapresídios ao estilo de Bukele: o plano de Flávio
O plano registrado no TSE prevê cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador; o conjunto com os presídios federais se chamaria TREVA.

O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) promete cinco novos presídios de segurança máxima, “no modelo adotado por El Salvador”. O texto foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 13 de agosto. Os novos presídios se somariam às cinco penitenciárias federais existentes, para formar o Complexo Federal de Segurança Máxima. O nome, segundo o plano, seria TREVA: “para tirar o medo do cidadão e botar medo no bandido”.
O país já isola chefes de facção nas cinco penitenciárias federais, com cela individual e visitas atrás de vidro — unidades poucas, de lotação limitada, definidas por lei como excepcionais. A proposta de Flávio dobra a aposta. A referência do plano é o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que se tornou conhecido mundialmente por encarcerar em massa integrantes de gangues em presídios gigantes de segurança máxima.
As regras prometidas
O plano detalha o regime prometido. Chefes de quadrilha e presos de alta periculosidade seriam “tirados de circulação” e isolados, vivendo “sem celular, sem visita íntima e com visitas monitoradas”, diz o texto. O objetivo declarado é impedir que as facções sejam comandadas de dentro das cadeias, “como ocorre hoje”.
Quanto custariam os cinco megapresídios? O plano não traz nenhum valor para as obras. No mesmo capítulo, promete meio milhão de vagas em quatro anos e “zerar o déficit carcerário” — também sem custo em nenhum trecho.
Além dos presídios, o pacote prevê castração química para condenados por estupro e abuso de crianças. E propõe o fim da progressão de regime para crimes hediondos, a passagem gradual do preso para regimes menos rigorosos. A Lei Antifacção, deste ano, já exige de 70% a 85% da pena cumprida antes dessa progressão; o plano quer acabar com o benefício.
O capítulo prisional fecha um pacote declarado em tom de guerra. O plano declara o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as milícias “narcoterroristas”, com ativos bloqueados. E prevê que “bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido pelas forças de segurança”. O texto promete ainda consórcios com estados e municípios para retomar territórios.
No Senado, o candidato do PL tem histórico coerente com o plano. Foi relator do projeto das saidinhas, que eliminou a saída de presos em feriados, aprovado por 62 votos a 2 em fevereiro de 2024. Votou a favor do PL Antifacção, aprovado por 64 a 0 em dezembro de 2025.
Fora do Congresso, o tom é o mesmo. Em outubro de 2025, durante operação contra o Comando Vermelho no Rio, defendeu sua ideia anterior de bombardear barcos do tráfico. Na mesma ocasião, arrecadou cerca de R$ 872 mil para as famílias dos quatro policiais mortos.
O que dizem os especialistas
O modelo prometido, porém, esbarra na avaliação dos especialistas. O pesquisador Luiz Fábio Paiva, coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC), diz que o plano “desconhece o sistema de segurança pública”. Para os ouvidos pelo Bem Paraná, as medidas são populismo penal, sem evidência de que funcionem.
A crítica central é histórica: endurecer penas e ampliar o encarceramento não derrubou a criminalidade, avaliam os especialistas. A pesquisadora Carolina Grillo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta o mesmo registro. Prender mais adolescentes, avalia ela, fortalece as facções, que já dominam o ambiente prisional.
Há uma ressalva na mesma reportagem. Outros especialistas veem valor em declarar as facções “narcoterroristas”. O rótulo, avaliam, pode apertar o financiamento do crime.
O que diz Flávio Bolsonaro: A campanha sustenta que o criminoso precisa ser enfrentado com força; no plano, bandido armado com fuzil “vai ser abatido pelas forças de segurança”. O texto defende ainda que o isolamento total dos chefes vai impedir que as facções sejam comandadas de dentro dos presídios, “como ocorre hoje”.
O segundo turno será no domingo (25). Quem acompanha o sistema prisional pesa, na urna, a promessa de cinco megapresídios contra o aviso documentado dos especialistas: endurecer penas e ampliar o encarceramento não derrubou a criminalidade. O plano chama o conjunto de TREVA; os pesquisadores chamam a premissa de populismo penal.
Fontes
- Segurança pública: veja as propostas de Flávio na íntegra — SBT News
- Plano de governo de Flávio Bolsonaro — site oficial da campanha
- “Plano de Flávio Bolsonaro ‘desconhece o sistema de segurança pública’, dizem especialistas — Bem Paraná/Folhapress”
- Flávio Bolsonaro defende classificar PCC e CV como terroristas — Metrópoles
- Senado aprova PL das saidinhas, que elimina saída de presos em feriados — Congresso em Foco
- Veja os senadores que garantiram votação unânime do PL Antifacção — Gazeta do Povo



