Crime organizadoFintechs

Receita liga fintechs a lavagem do PCC; veja o que o Estado fez

Segundo a Receita, seis fintechs movimentaram mais de R$ 26 bilhões ligados ao PCC; veja como elas funcionam e quais controles o Estado criou.

Publicado em
Leitura
4 min de leitura
Torres de vidro escuro e um pilar de concreto do prédio-sede do Banco Central, em Brasília, vistos de baixo contra o céu azul.
Sede do Banco Central do Brasil, em Brasília. O BC edita as regras que valem para as instituições de pagamento.Foto: Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 20 de outubro de 2026, a Advocacia-Geral da União (AGU) ajuizou quatro ações civis para recuperar R$ 190,3 milhões ligados ao PCC e ao Comando Vermelho (CV), com base na Lei Antifacção. Mas a ação não mostra por onde o dinheiro entrou no sistema financeiro.

Parte da resposta está nas fintechs. Em 24 de setembro de 2026, a Receita Federal e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo (MPSP) deflagraram a terceira fase da Operação Carbono Oculto, chamada Crédito Oculto.

Fintech, instituição de pagamento e conta-bolsão

Fintech é uma empresa de tecnologia que oferece serviços financeiros digitais. Muitas são instituições de pagamento, autorizadas pelo Banco Central (BC) a manter contas e fazer pagamentos. Por não serem bancos, não podem usar o dinheiro dos clientes para emprestar, segundo a BBC Brasil.

Uma conta-bolsão reúne, numa só conta, o dinheiro de muitos clientes, sem identificar cada dono. Para o BC, o uso é irregular quando o titular paga ou recebe por terceiros para ocultar as obrigações desses terceiros.

Como o dinheiro circula

O secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, resumiu a entrada: “A fintech é a porta de entrada”. Depois, segundo a BBC, fundos aplicam em outros fundos, o que dificulta o rastreamento.

Em 28 de agosto de 2025, a Carbono Oculto mirou postos de combustíveis e uma fintech que, segundo a Receita, funcionava como banco paralelo do grupo. Em 28 de maio de 2026, a Fluxo Oculto cumpriu 59 mandados em cinco estados contra seis fintechs. Elas movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, segundo a Receita.

O que o Estado fez

Em 5 de setembro de 2025, o BC anunciou que nenhuma instituição de pagamento poderá operar sem autorização prévia. Limitou a R$ 15 mil as transferências por Pix e por TED (transferência eletrônica disponível) de empresas sem autorização, segundo a Agência Brasil.

Em 3 de novembro de 2025, BC e Conselho Monetário Nacional (CMN) publicaram as Resoluções BCB 518 e CMN 5.261. Elas mandam encerrar contas usadas para serviços sem respaldo legal, a partir de 1º de dezembro de 2025.

A Receita publicou a Instrução Normativa RFB 2.278, de 28 de agosto de 2025. Ela obriga instituições de pagamento a entregar a e-Financeira, declaração de movimentações que os bancos já enviavam. Segundo a Receita, “há um vácuo regulamentar, já que elas não têm as mesmas obrigações de transparência”.

A Lei Antifacção (Lei 15.358, sancionada em 24 de março de 2026) permite bloquear bens, inclusive ativos digitais, e o acesso de grupos a sistemas financeiros e meios de pagamento. Ela manda comunicar essas medidas de imediato ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e ao BC.

O que ainda falta

Três pontos seguem em aberto. O primeiro são os dados: não localizamos balanço público de quantas empresas pediram autorização até maio de 2026.

O segundo é o Coaf, que recebe e examina operações suspeitas. O texto consolidado da Lei 9.613, de 1998, no Planalto, não cita as instituições de pagamento entre as pessoas obrigadas a comunicar.

O terceiro é a Justiça. Segundo o Estadão, em reportagem de 4 de setembro de 2026, o MPSP denunciou nove pessoas por organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Entre elas estão Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, que negam ligação com o PCC. Não localizamos decisão que aceite a denúncia, nem condenação. As movimentações passaram por contas-bolsão da BK Bank Instituição de Pagamento. Não localizamos resposta da empresa.

O que diz o Banco Central: Em nota de 3 de novembro de 2025, o BC afirmou que “o encerramento das contas também visa acabar com as chamadas ‘contas-bolsão’”. A frase foi reproduzida pela Jovem Pan.

O que isso significa

Seguir o dinheiro depende de dados. Quando uma conta reúne recursos de muitos donos, o Estado vê o total, mas não vê quem é o dono de cada parte. As regras de 2025 e 2026 fecham parte dessa brecha. Segue em aberto se os dados chegam à Receita, ao BC e ao Coaf, e se as denúncias viram julgamento.

Como fizemos: Usamos o texto da Lei 15.358 e o texto consolidado da Lei 9.613 no site do Planalto, notas e reportagens sobre as operações de 28/08/2025, 28/05/2026 e 24/09/2026, e a nota da Receita de agosto de 2025, consultados em 26/10/2026. Não fizemos cálculos próprios; os valores são informados pelas investigações e ainda não foram julgados. Não verificamos como o BC enquadra as instituições de pagamento nas comunicações ao Coaf. Não localizamos reportagem de 20 a 26/10/2026 sobre fintechs e lavagem; o fato mais recente sobre o tema é de 24/09/2026. Não enviamos perguntas às partes para este texto; as declarações citadas são públicas.

Fontes