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Em 2002, o dólar atingiu o pico antes do segundo turno de Lula

O dólar chegou a R$ 3,9552 em 22 de outubro de 2002, cinco dias antes do segundo turno, e a bolsa subiu com força em 2003.

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Lula, de faixa presidencial, e Fernando Henrique Cardoso, com suas esposas, no parlatório do Palácio do Planalto, em Brasília.
Lula, com a faixa presidencial, no parlatório do Palácio do Planalto, no dia de sua posse, em 1º de janeiro de 2003.Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Em 22 de outubro de 2002, o dólar chegou a R$ 3,9552, segundo a série diária de venda do Banco Central (BC). Foi o maior valor entre setembro e outubro daquele ano. Cinco dias depois, em 27 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva venceu o segundo turno com 61,27% dos votos válidos.

O pânico do mercado veio antes da urna, e não depois. Os dados do BC, da B3 e do Ipeadata mostram que os piores níveis ficaram antes do segundo turno. A recuperação veio nos anos seguintes, mas não foi linear.

Os piores níveis vieram antes do segundo turno

O risco-país, medido pelo índice EMBI+ Brasil, calculado pelo banco J.P. Morgan, chegou a 2.443 pontos em 27 de setembro de 2002. O índice mostra quanto o Brasil paga a mais em juros do que os Estados Unidos para tomar dinheiro no exterior. Em 31 de outubro, já depois da eleição, estava em 1.741 pontos.

A bolsa seguiu a mesma trajetória. Em 16 de outubro, o Ibovespa, principal índice da B3, fechou em 8.370,80 pontos, o menor nível do ano. Em 2002 inteiro, o índice caiu 17%, segundo o Blog do IBRE, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O dólar também teve o pico antes da votação. Entre 22 e 31 de outubro, a cotação caiu de R$ 3,9552 para R$ 3,6450, uma queda de 7,8% em sete dias úteis. A tabela reúne os números.

Os piores níveis ficaram antes do segundo turno Pontos e reais, valores nominais de cada data, de 2002 a 2007

Data Indicador Valor
27/09/2002 Risco-país (EMBI+ Brasil), em pontos 2.443
16/10/2002 Ibovespa, menor fechamento de 2002, em pontos 8.370,80
22/10/2002 Dólar, taxa de venda (R$) 3,9552
31/10/2002 Dólar, taxa de venda (R$) 3,6450
31/12/2002 Dólar, taxa de venda (R$) 3,5333
30/12/2003 Ibovespa, maior fechamento de 2003, em pontos 22.236,30
31/12/2003 Dólar, taxa de venda (R$) 2,8892
31/12/2007 Dólar, taxa de venda (R$) 1,7713

Fonte: Banco Central (SGS, séries 1 e 433), B3 (recordes anuais do Ibovespa), Ipeadata (EMBI+ Brasil). Elaboração: redação.

O que veio depois

Em 2003, a bolsa caiu até 9.994,80 pontos, em 26 de fevereiro, o menor nível daquele ano. Em 30 de dezembro, chegou a 22.236,30 pontos, o maior fechamento do ano. Foi uma alta de 122,5% a partir do mínimo. O dólar também caiu: fechou 2003 em R$ 2,8892, 18,2% abaixo dos R$ 3,5333 do fim de 2002.

Em 31 de dezembro de 2007, o dólar fechou em R$ 1,7713. Como a inflação muda o valor do dinheiro com o tempo, corrigimos o pico de outubro de 2002 pelo IPCA, o índice oficial de inflação, até dezembro de 2007. Em valores de 2007, o pico equivale a cerca de R$ 5,57. Pela conta, a queda real até o fim de 2007 foi de cerca de 68%.

O que contribuiu, segundo registros da época

A Carta ao Povo Brasileiro, divulgada em junho de 2002, foi escrita por Lula durante a campanha. Nela, ele afirmou: “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país.” Ele também escreveu que vai “preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente”.

O superávit primário é a economia feita pelo governo para pagar juros da dívida pública. A equipe econômica também pesou. Segundo a Bloomberg Línea, Antonio Palocci foi anunciado ministro da Fazenda em 12 de dezembro de 2002. Henrique Meirelles assumiu o Banco Central em 1º de janeiro de 2003 e ficou no cargo até 2010.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), em texto de 2007, diz que a eleição pressionou a economia. Houve saídas substanciais de capital, porque os mercados temiam que as políticas favoráveis ao mercado fossem revertidas. Uma análise da Le Monde Diplomatique Brasil associa a alta das commodities, matérias-primas vendidas no mercado internacional, a juros baixos e muita liquidez nos países ricos. Liquidez, aqui, quer dizer dinheiro abundante no exterior, e a demanda da China também pesou.

O passado não garante o futuro

A comparação ajuda a entender um padrão, mas não é previsão. O cenário de 2026 é outro, e nenhuma série antiga define o que o mercado fará agora.

Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar antes de passar. Esta reportagem não é recomendação de compra, venda ou manutenção de qualquer investimento.

O que diz Luiz Inácio Lula da Silva: Na Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002, ele escreveu que “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país.” O texto integral foi publicado pelo Congresso em Foco. Esta reportagem não o procurou: a posição citada é a de um documento de 2002.

Como fizemos: Usamos a série diária da taxa de venda do dólar e a série mensal do IPCA, ambas do Banco Central (SGS, códigos 1 e 433); os recordes anuais do Ibovespa, da B3; e o EMBI+ Brasil, do Ipeadata. Os dados foram acessados em 26/10/2026. As variações e a correção pela inflação são cálculos da redação. A correção soma o IPCA de novembro de 2002 a dezembro de 2007 e é uma aproximação, pois usa o nível de preços de outubro de 2002 como base. Os dados mostram coincidências no tempo, não o peso de cada fator, e não preveem o mercado.

Fontes