DadosLetalidade Policial

Amapá lidera mortes por intervenção policial, com 17,1 por 100 mil

Anuário 2026 mostra Amapá, Bahia e Sergipe com as maiores taxas de mortes por intervenção policial em 2025, com média nacional de 3,1.

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Três soldados e um oficial da Polícia Militar de São Paulo, de máscara preta e farda, com câmeras corporais presas ao uniforme, ao lado de carregadores de câmeras e de um notebook com imagens de gravações.
Policiais militares de São Paulo com câmeras corporais, durante a apresentação do programa Olho Vivo, em julho de 2020 (foto de arquivo).Foto: Governo do Estado de São Paulo / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Amapá teve a maior taxa de mortes por intervenção policial do país em 2025: 17,1 para cada 100 mil habitantes. A média nacional foi de 3,1. Os dados fazem parte do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23 de julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Este texto compara os estados. O foco são as mortes causadas por ações policiais, e não os homicídios em geral.

Mortes por intervenção policial são pessoas mortas em ações da polícia, como operações e confrontos. O Anuário as conta separadamente dos homicídios. Em 2025, foram 6.602 no país, alta de 5,4% em relação a 2024.

A taxa mostra quantas mortes houve a cada 100 mil habitantes. Com ela, estados de tamanhos diferentes podem ser comparados de forma justa.

Amapá, Bahia e Sergipe têm as taxas mais altas

A tabela mostra os cinco estados com as maiores taxas e os cinco com as menores, entre as 27 unidades da federação (26 estados e o Distrito Federal).

Amapá lidera a letalidade policial; Roraima tem a menor taxa Mortes por intervenção policial por 100 mil habitantes, 2025

Estado Taxa por 100 mil Em relação à média nacional
Amapá 17,1 5,5 vezes
Bahia 10,6 3,4 vezes
Sergipe 8,4 2,7 vezes
Pará 7,3 2,4 vezes
Goiás 4,9 1,6 vez
Brasil 3,1 —
Amazonas 0,9 29%
Piauí 0,9 29%
Rio Grande do Sul 0,7 23%
Distrito Federal 0,5 16%
Roraima 0,4 13%

Fonte: FBSP, 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, conforme CNN Brasil (23/07/2026). Elaboração: redação.

O Amapá lidera pelo sétimo ano seguido, segundo o Anuário. Sua taxa ficou estável em relação a 2024 e é mais de cinco vezes a média nacional.

A Bahia registrou 1.570 mortes, a maior contagem do país. Isso equivale a cerca de 23,8% do total nacional. Em outro extremo, Roraima tem taxa de 0,4, e a do Amapá é mais de 35 vezes maior.

Mortes pela polícia não são todos os homicídios

O Anuário também mede outras mortes violentas intencionais. Elas incluem homicídios dolosos (cometidos com intenção), roubos seguidos de morte e lesões corporais seguidas de morte, além das mortes pela polícia.

Esse conjunto somou 40.775 vítimas em 2025, queda de 7,8%. As mortes pela polícia equivalem a cerca de 16,2% desse total.

Por isso, a taxa de 42,5 por 100 mil do Amapá não mede só a polícia. Ela inclui todas as mortes violentas intencionais. Bahia (36,8) e Ceará (34,7) aparecem em seguida nesse ranking. Não confunda essas taxas com a de 17,1, que mede só as mortes pela polícia.

O que pode mudar a letalidade policial

Os números mostram onde as mortes são maiores, mas não dizem por quê. Por isso, vale olhar o que os estudos dizem sobre controles.

Um dos mais estudados é a câmera corporal. Em São Paulo, um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) estimou queda de 57% nas mortes por intervenção policial nas áreas com câmeras, em relação ao período anterior. Segundo o estudo, cerca de 104 mortes foram evitadas em 14 meses, só na região metropolitana da capital. Trata-se de uma comparação entre áreas e períodos, e ela não prova sozinha a causa da queda.

Em 2023, a Agência Brasil informou que mais de 30 mil câmeras corporais estavam em uso por policiais e guardas municipais.

Há ainda o controle externo. A Constituição atribui ao Ministério Público esse controle sobre a atividade policial (artigo 129, inciso VII). No Amapá, segundo o ConectAmapa, o órgão discutiu o uso de câmeras com a Polícia Militar em 2022.

Para o pesquisador Leonardo de Carvalho Silva, do FBSP, corporações permeáveis à corrupção ficam menos capazes de controlar o uso da força.

O que diz o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP): No Anuário, o pesquisador Leonardo de Carvalho Silva escreveu: “Corporações permeáveis à corrupção tornam-se menos capazes de controlar o uso legítimo da força”. A frase foi citada pelo ICL Notícias. Não houve contato direto com o Fórum para esta reportagem.

O que isso significa

Quatro dos cinco estados com maior taxa ficam no Norte e no Nordeste. Os números mostram essa concentração regional, mas não explicam a causa.

Ficam em aberto duas perguntas. A alta de 2025 vai se manter? E os controles, como câmeras e controle externo, mudam o quadro de forma duradoura?

A diferença entre o Amapá e Roraima é o dado mais forte deste levantamento. A pergunta que sobra é o que cada governo estadual faz nessas situações, e com que resultado.

Como fizemos: Usamos a tabela estadual do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, dados de 2025), conforme publicada pela CNN Brasil, com conferência do topo e da base em Brasil de Fato e Poder360, acessados em 22/10/2026. O PDF e a planilha oficiais não puderam ser abertos, e a lista dos 27 estados vem de uma só reportagem; por isso a tabela mostra só os cinco primeiros e os cinco últimos. Cálculos próprios: taxa do estado dividida pela média nacional de 3,1; 6.602 ÷ 40.775 ≈ 16,2%; 1.570 ÷ 6.602 ≈ 23,8%. Como as fontes não trazem o número de mortes da maioria dos estados, a tabela mostra só taxas, e os dados não explicam as causas das diferenças.

Fontes