TribunaEleições 2026
A Bolsa não é placar de legitimidade da eleição
A queda de 13,88% do Ibovespa mede expectativas de juros e contas públicas. Ela não decide a legitimidade do voto, que vem das urnas.
Tribuna. Este artigo reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Ordem e Progresso.
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Na segunda-feira (26), o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. O Ibovespa é o principal índice da Bolsa brasileira, administrada pela B3, a empresa que opera o mercado de ações do país. A queda veio no primeiro pregão depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. O dólar subiu cerca de 8%, para perto de R$ 5,40, segundo o InfoMoney.
Um tombo desses pode ser lido como veredito sobre a eleição. Essa leitura está errada. A Bolsa mostra o que investidores esperam do futuro. Ela não mede se o voto foi válido.
A legitimidade vem das urnas
A legitimidade de uma eleição nasce do voto e da contagem feita pela Justiça Eleitoral. Na noite de domingo (25), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarou Lula reeleito, com cerca de 64,2 milhões de votos. Flávio Bolsonaro teve cerca de 59,8 milhões, segundo o Senado Notícias.
Ao anunciar o resultado, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, disse: “Temos absoluta segurança do processo eleitoral”. Segundo o mesmo balanço, 1.551 das 499 mil urnas precisaram ser trocadas, o equivalente a 0,31%. Essa é a regra de qualquer democracia: quem perde pode recorrer pelos canais legais. Não pode trocar o voto por uma cotação.
O mercado não tem esse papel. Ele reúne milhões de compras e vendas. Cada preço é uma aposta sobre juros, impostos e gastos do governo. Quando a aposta erra, o preço muda. O voto continua o mesmo.
O gestor de portfólio Thomas Haugaard, da Janus Henderson, disse ao InfoMoney: “O resultado do domingo (25) foi surpreendente, mas principalmente porque os mercados haviam se dissociado das pesquisas”. Ou seja, a precificação do mercado tinha se afastado do que mostravam as pesquisas. Isso é erro de previsão, não defeito da urna.
O que diz Thomas Haugaard, da Janus Henderson: Em declaração publicada pelo InfoMoney em 26/10/2026, afirmou que o resultado foi “surpreendente” porque os mercados tinham se afastado das pesquisas. A declaração é pública. Esta redação não o procurou diretamente.
Quem sente a conta, e o que é o debate fiscal
Poucos brasileiros têm ações. A B3 registrou 5,7 milhões de CPFs de pessoas físicas em renda variável no fim de junho de 2026. CPF é o número de cadastro de cada pessoa. Com 214,2 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção é de cerca de 2,7%.
A conta não termina na Bolsa. O dólar mais caro chega aos preços de bens importados e de insumos. Os juros chegam ao crédito para casa, carro e cartão. Esses efeitos atingem quem nunca comprou uma ação.
O risco fiscal é um tema legítimo. Ele trata da chance de o governo gastar mais do que arrecada. Economistas ouvidos pelo InfoMoney apontam que o mercado observa exatamente isso. Essa cautela tem base real, porque dívida e gastos afetam juros e câmbio.
O argumento contrário tem parte verdadeira. Preços de ações e de juros reúnem informação de muita gente, e isso ajuda a enxergar riscos. Mas um sinal de risco não é um veredito sobre o voto.
Debate sobre contas é debate de política. Quanto gastar, onde gastar e como arrecadar são escolhas do governo e do Congresso. Elas se decidem com voto e lei. Não funcionam como veto ao resultado de uma eleição.
A segurança pública também depende disso. O Fundo Nacional de Segurança Pública depende de recursos que o orçamento prevê e que são efetivamente pagos. Um orçamento apertado tende a pressionar investimentos em prevenção e perícia.
A Bolsa vai continuar medindo expectativas, e isso tem utilidade para quem investe e para quem governa. Ela pode dizer que uma política é cara ou arriscada. Não pode dizer quem tem direito de governar. Essa resposta vem das urnas e da Justiça Eleitoral. Para o leitor, a lição é separar a notícia da aposta. Uma queda de preço mostra o que alguns esperavam. Uma eleição mostra quem o povo escolheu.
Investimentos em ações podem perder valor, inclusive em poucos dias. Este texto não é recomendação de investimento.
Como fizemos: Usamos o fechamento do Ibovespa e a cotação do dólar publicados pelo InfoMoney em 26/10/2026, acessados em 26/10/2026. Os votos e o balanço das urnas vêm do Senado Notícias, de 25/10/2026. O número de CPFs em renda variável vem de release da B3 de 17/09/2026, com dado de junho de 2026. A população de 214,2 milhões é estimativa do IBGE para 1º de julho de 2026. O percentual de 2,7% é cálculo da redação: 5,7 milhões divididos por 214,2 milhões. Os dados não mostram quanto cada investidor aplica.
Fontes
- InfoMoney: Ibovespa hoje, Ibovespa desaba 13% após eleição, em dia de circuit breaker; dólar dispara 8% (acesso em 26/10/2026)
- Senado Notícias: Lula é reeleito para quarto mandato de presidente (acesso em 26/10/2026)
- Senado Notícias: Presidente do TSE confirma reeleição de Lula e faz balanço do pleito (acesso em 26/10/2026)
- B3: ETFs ganham 223 mil investidores em um ano e alcançam 862 mil CPFs na B3 (release de 17/09/2026; acesso em 26/10/2026)
- Poder360: Brasil chega a 214,2 milhões de habitantes em 2026, diz IBGE (acesso em 26/10/2026)



