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Quem perde recorre, mas não rasga a urna

Flávio Bolsonaro pode levar a disputa à Justiça, mas recusar o resultado sem provas custa caro à democracia e à ordem pública.

Tribuna. Este artigo reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Ordem e Progresso.

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Mascote em forma de urna eletrônica, com a tecla CONFIRMA visível, ao lado de uma pessoa de cabelos grisalhos que aplaude em um evento do TSE.
Mascote com formato de urna eletrônica nas comemorações de 30 anos da urna, promovidas pelo Tribunal Superior Eleitoral, em foto de 4 de maio de 2026.Foto: Alejandro Zambrana / Secom/TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Na noite de domingo (25), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o Senado Notícias, Lula teve cerca de 64,2 milhões de votos válidos, e Flávio Bolsonaro, cerca de 59,8 milhões. Logo depois, Flávio disse: “É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto, vamos pedir a anulação”.

Quem perde uma eleição tem caminhos previstos em lei. O primeiro é o recurso, um pedido para que outra instância reveja uma decisão. O segundo é a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), processo que apura abuso de poder durante a campanha. Os dois existem para isso, e a Justiça Eleitoral precisa examiná-los.

Este jornal defende uma regra simples. Quem perde pode contestar, mas precisa apresentar provas antes de pôr em dúvida o voto de milhões de pessoas. Recusar o resultado antes de qualquer análise é outra coisa.

O argumento de Flávio, e o que os fatos mostram

O argumento central de Flávio é a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que estendeu a votação até as 19h. Em pronunciamento no domingo, ele disse: “Às 17 horas e 1 minuto, o Ministro Zanin, que não faz parte do Tribunal Superior Eleitoral, atropelando a justiça especializada, toma uma decisão prorrogando por duas horas as eleições.” A fala foi publicada pela Gazeta do Povo.

A crítica tem base na forma. Ministros do TSE, ouvidos sob anonimato pela CNN Brasil, falaram em “interferência de Zanin em uma atribuição do TSE”. Mas o alcance da decisão foi limitado. A prorrogação valeu só para as seções que ainda estavam abertas, e urnas já fechadas não foram reabertas, segundo o Senado Notícias.

O pedido também não partiu de um lado só. Segundo a Exame, as campanhas de Lula e de Flávio pediram a ampliação do horário, cada uma para áreas diferentes. A do PL citou chuvas e alagamentos em municípios de cinco estados. Segundo o Senado Notícias, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, respondeu: “Não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial. Houve a prorrogação, na forma que foi decidida.”

Sobra a frase mais honesta da fala de Flávio: “Eu nunca vou saber se em algum estado onde as urnas não foram reabertas, quantos votos eu poderia ter.” Ele não aponta um voto perdido. Admite que não sabe quantos seriam. Uma dúvida sobre o que não se sabe pode ir à Justiça, mas não basta para anular uma eleição.

O custo de negar a urna

Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram e depredaram prédios da Praça dos Três Poderes, em Brasília. A Procuradoria-Geral da República (PGR) acusou os envolvidos de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado democrático de direito.

Segundo balanço da PGR divulgado pela Agência Brasil em julho de 2025, o STF já condenou 643 pessoas pelos atos. As penas variam de três a 17 anos de prisão. Outros 555 acusados fecharam acordos de não persecução penal (ANPP), que encerram os processos. Os condenados devem pagar, em conjunto, R$ 30 milhões pelos danos.

A lição não é só jurídica. A segurança das eleições depende de polícias, servidores e urnas que funcionam sob fiscalização. Quando um candidato diz que o resultado é impossível de reconhecer, aumenta a desconfiança sobre instituições que, nas fontes consultadas, não tiveram falha comprovada.

O caminho legal existe e já foi usado nesta campanha. Em 28 de setembro de 2026, a campanha de Flávio apresentou ao TSE uma AIJE contra a chapa de Lula, por suposto abuso de poder, segundo o portal Ohoje. O processo ainda será analisado. Se houver fundamento, a Justiça Eleitoral dirá. Ninguém precisa rasgar a urna para ser ouvido.

O que diz Flávio Bolsonaro: No domingo (25), ele disse que o ministro Zanin atuou “atropelando a justiça especializada” e que vai pedir a anulação da eleição, segundo a Gazeta do Povo e o Poder360. Não localizamos nota oficial do PL sobre o resultado até a publicação deste texto.

O que fica? A eleição tem regras, prazos e juízes. Flávio pode cobrar cada ponto que considera errado, da sala-cofre às seções que ficaram abertas, e pedir revisão. O que não se sustenta é tratar uma suspeita sem prova como se fosse resultado. Quem perde recorre. Quem nega a urna deixa a conta para o eleitor e para quem guarda a votação.

Como fizemos: Usamos a apuração citada pelo Senado Notícias em 25/10/2026 (totais arredondados), as declarações publicadas pelo Poder360, pela Gazeta do Povo e pelo Senado Notícias, a reportagem da Exame sobre os pedidos de prorrogação e a reportagem da CNN Brasil. Os valores do balanço da PGR são de julho de 2025; não localizamos balanço mais recente. Fontes acessadas em 26/10/2026.

Fontes