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Milícia cobra taxa em Nova Iguaçu: o Estado precisa voltar ao bairro

Operação contra o Bonde do Varão expõe taxa de segurança cobrada de comércio e condomínios. A saída passa por presença do Estado e por seguir o dinheiro.

Tribuna. Este artigo reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Ordem e Progresso.

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Vista elevada de casas, prédios e ruas do bairro Chacrinha, em Nova Iguaçu, sob céu azul.
Vista do bairro Chacrinha, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A foto mostra o município, não a investigação.Foto: Jp.curvello / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na terça-feira (27), a Polícia Civil do Rio deflagrou uma operação contra uma milícia que cobra “taxa de segurança” de comerciantes e condomínios em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A ação partiu da 52ª Delegacia de Polícia (DP) e tem apoio do Ministério Público (MP). Segundo a investigação, o grupo está ligado a Gilson Ingrácio de Souza Júnior, conhecido como Juninho Varão.

Em agosto, a Operação Fora de Ordem, da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), já tinha cumprido 23 mandados de busca e apreensão contra o mesmo grupo, no Rio e em Nova Iguaçu. Os investigados não foram condenados. Milícia é um grupo armado que controla um território e cobra dos moradores por “proteção”.

Quando a taxa ocupa o lugar do Estado

Segundo a investigação, moradores eram obrigados a comprar água e gelo de fornecedores indicados pelo grupo. Uma conta analisada movimentou cerca de R$ 373 mil em seis meses, de acordo com O São Gonçalo. Quem paga a taxa não escolhe o serviço nem o preço. Paga a quem manda no local.

No dia 14 de outubro, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) mirou um caso parecido no condomínio Jardim Guandu, também em Nova Iguaçu. Segundo a polícia, a milícia cobrava R$ 70 por apartamento por mês. A estimativa dos agentes é de R$ 85 mil a R$ 100 mil de arrecadação mensal, segundo o Correio da Manhã.

O caso mais grave é o do síndico. Segundo o Correio da Manhã, a milícia colocou síndicos seus no lugar dos regulares. A delegada Luciana Fonseca afirmou: “Identificamos uma estrutura administrativa que foi criada naquele condomínio, na qual síndicos foram colocados pela milícia”. O síndico administra as contas e as decisões do prédio. Quando um grupo armado ocupa esse cargo, controla o dinheiro de quem mora ali.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgada em maio de 2026, mostra que o problema não é isolado. Segundo o levantamento, 41,2% das pessoas com 16 anos ou mais reconhecem a presença de grupos criminosos no bairro onde moram. A mesma pesquisa estima que 68,7 milhões de pessoas vivam em áreas com facções ou milícias. O número junta os dois tipos de grupo e não separa as milícias.

Operação é necessária, mas não basta

Há um argumento sério do outro lado: a lei já é dura. Pela Lei 12.720, de 2012, quem constituir, organizar, integrar, manter ou custear milícia particular está sujeito a reclusão de 4 a 8 anos, segundo o artigo 288-A do Código Penal. Operações como as de agosto e de outubro são o que faz essa lei sair do papel. Sem elas, a lei fica só no texto.

A repressão, porém, chega depois que a taxa já foi paga. Uma operação prende alvos e apreende bens. Se o serviço público não volta ao bairro, a cobrança pode reaparecer com outro nome. O morador convive com a taxa todos os dias, e não só nos dias de operação.

Por isso a resposta precisa de presença permanente. Ela inclui polícia de rotina, fiscalização de quem vende água e gelo e condomínios que não dependam de um síndico ligado ao grupo.

Também é preciso seguir o dinheiro. Na Operação Fora de Ordem, a investigação usou relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Eles apontaram movimentações atípicas acima de R$ 350 milhões. Segundo a Gazeta do Povo, investigadores também encontraram indícios de ligação do grupo com agentes públicos. Prender integrantes sem rastrear o caixa deixa a estrutura de pé.

O que diz a Polícia Civil do Rio: O texto de O São Gonçalo não traz declaração oficial sobre a operação de 27 de outubro. Em outra ação contra o grupo, a delegada Luciana Fonseca afirmou que “síndicos foram colocados pela milícia”, segundo o Correio da Manhã.

A presunção de inocência vale para todos os citados. Juninho Varão e os demais são investigados, e nenhum foi condenado até aqui. Se o MP apresentar denúncia, caberá à Justiça decidir. Enquanto isso, a taxa cobrada no bairro mostra o que acontece quando o Estado chega depois do cobrador.

Como fizemos: Este texto é opinião da redação, com base em reportagens de O São Gonçalo (publicada em 27/10/2026), Correio da Manhã (operação de 14/10/2026), Gazeta do Povo (20/08/2026), no texto da Lei 12.720/2012 no site do Planalto e em pesquisa Datafolha encomendada pelo FBSP, divulgada em maio de 2026, acessados em 27/10/2026. Os valores de arrecadação são estimativas da polícia, não apuradas de forma independente. Não fizemos cálculos próprios, e os números da pesquisa não separam milícias de facções.

Fontes