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Seguir o ouro roubado funciona e o Estado deve copiar a estratégia

A terceira fase da Operação Ouro Reverso bloqueou mais de R$ 374 milhões, e seguir o dinheiro do crime deve virar política de segurança pública.

Tribuna. Este artigo reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Ordem e Progresso.

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Viatura da Polícia Civil de São Paulo estacionada diante de um muro, com sirene no teto.
Viatura da Polícia Civil de São Paulo em foto de arquivo; o artigo discute como seguir o dinheiro de crimes ligados a ouro e joias.Foto: EUDOXIO / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Na terça-feira (27), a Polícia Civil de São Paulo deflagrou a terceira fase da Operação Ouro Reverso. Segundo a Agência SP, a operação cumpriu 31 mandados de busca e apreensão e bloqueou mais de R$ 374 milhões em bens e ativos.

O número chama atenção, mas o que importa é o caminho do ouro. A investigação descreve uma cadeia que começa no roubo e termina na conta bancária. Atacar o último elo é política de segurança, e o Estado deveria financiá-la e repeti-la.

Seguir o dinheiro dá resultado

Segundo a Agência SP, o grupo se divide em três núcleos. O primeiro obtém joias e metais preciosos em crimes patrimoniais, como roubos e furtos. O segundo recebe e transforma esse material. O terceiro movimenta o dinheiro para ocultar a origem dos valores.

As fases anteriores seguem a mesma lógica. A primeira, em maio de 2025, atacou roubos violentos de alianças e o recebimento inicial das peças. A segunda, em 24 de agosto de 2026, bloqueou R$ 34.682.364,90 em 13 contas bancárias, segundo o Correio da Manhã.

A terceira fase mira o dinheiro. Segundo a Agência SP, uma das empresas investigadas teria movimentado mais de R$ 356 milhões. A reportagem não a identifica. O “teria” mostra que o número é uma alegação da investigação, ainda não um fato provado.

Quem rouba joias quer transformá-las em dinheiro. Sem comprador e sem conta para receber o pagamento, o roubo perde o sentido. Por isso, bloquear contas e bens atinge a engrenagem do crime, e não apenas quem está na rua.

Segundo a Agência SP, os investigados usariam empresas de fachada, “laranjas” e transferências sucessivas para esconder a origem do dinheiro. Desmontar esse arranjo exige análise financeira, que custa equipe e tecnologia. Esse custo é o que o Estado precisa pagar.

O país já tem uma ferramenta com retorno mensurável. Entre janeiro e outubro de 2021, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) fez 184 leilões de bens apreendidos. Arrecadou cerca de R$ 105 milhões, segundo o Bahia Notícias. Em 2019 e 2020, a arrecadação foi de R$ 4 milhões e R$ 39,9 milhões.

A destinação do dinheiro também importa. Segundo a mesma reportagem, bens ligados ao tráfico de drogas vão para o Fundo Nacional Antidrogas (Funad), que financia projetos de segurança pública. Replicar a estratégia significa fazer o dinheiro do crime financiar a polícia e a prevenção, com regras públicas.

Bloqueio não é confisco

Aqui cabe a ressalva que o debate exige. Bloquear não é tirar. O bloqueio impede o uso de dinheiro ou bens enquanto a investigação avança. A perda definitiva é outra coisa: o artigo 91 do Código Penal lista a perda do produto do crime entre os “efeitos da condenação”.

O argumento mais forte contra a política é outro: o valor bloqueado raramente vira dinheiro público. Os dados mais citados vêm do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), do Ministério da Justiça. Em 2019, a diretora Érika Marena disse que o país bloqueou US$ 1,5 bilhão no exterior em 20 anos e repatriou US$ 282 milhões. Isso dá cerca de 19%, cálculo nosso.

Os números são de cooperação internacional, não das operações paulistas. Ainda assim, a diretora apontou o gargalo: “O dinheiro só é devolvido após o trânsito em julgado, que é o grande gargalo da Justiça Brasileira.” Trânsito em julgado é o momento em que não cabe mais recurso.

A crítica de que a operação vira espetáculo tem parte de razão quando a cifra fica no anúncio. A resposta é transparência. Cada governo que divulga o total bloqueado deveria divulgar também quanto virou recurso público. Sem esse número, o bloqueio mede intenção, não resultado.

Os citados são investigados, como trata a Agência SP. Até uma condenação definitiva, são presumidos inocentes. Não localizamos manifestações das defesas sobre a operação.

O que diz a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo: Em texto da Agência SP, o secretário Osvaldo Nico Gonçalves disse que o trabalho busca “atingir o patrimônio das organizações criminosas e enfraquecer sua capacidade de atuação”.

Falta saber quanto dos R$ 374 milhões virará recurso público, e em quanto tempo. Até agora, esse número não aparece nas notas consultadas.

Replicar a estratégia pelo país exige orçamento, equipe e a mesma prestação de contas. Seguir o dinheiro do crime não substitui a prevenção nem a presença policial. Mas ataca o lucro, que é a razão de todo o ciclo.

Como fizemos: Usamos a nota da Agência SP sobre a terceira fase, de 27/10/2026, o relato do Correio da Manhã sobre a segunda fase, a reportagem do Bahia Notícias com dados da Senad, a reportagem do Diário do Comércio sobre o DRCI, de 28/02/2019, e o texto do Código Penal no site do Planalto, todos acessados em 27/10/2026. O percentual de 19% é cálculo nosso. Os dados de recuperação são internacionais e antigos, e não localizamos dado atual sobre valores recuperados por operações paulistas.

Fontes