OpiniãoLetalidade Policial
Polícia que mais mata não é a que mais protege
Homicídios caíram à menor taxa desde 2012, mas as mortes causadas pela polícia cresceram em 2025. Controle externo protege também o policial honesto.
Opinião. Este artigo reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Ordem e Progresso.
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Opinião. Este texto expressa a posição do Jornal Ordem e Progresso. Os fatos citados têm fonte na seção Fontes.
O Brasil teve em 2025 a menor taxa de mortes violentas intencionais desde 2012: 19,1 por 100 mil habitantes. No mesmo relatório, as mortes causadas por policiais chegaram ao maior número absoluto da série histórica. O dado vem do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23 de julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Na apresentação do levantamento, o próprio FBSP resume o paradoxo. A menor taxa desde 2012 “convive com o recorde de letalidade policial”. Nossa tese é direta: uma polícia que mata mais não é uma polícia que protege mais.
Mortes violentas intencionais (MVI) reúnem homicídios, feminicídios, roubos seguidos de morte e as mortes causadas por policiais. Em 2025, policiais causaram 6.602 mortes, em serviço ou fora de serviço. É alta de 5,4% em relação a 2024. Essas mortes representaram 16,2% de todas as MVI do ano, segundo o Anuário, citado pela Agência Pública.
Os números não andam juntos
Os dois indicadores seguiram caminhos opostos. A violência geral caiu, mas a letalidade policial subiu. Segundo a Lusa, agência portuguesa que cita o relatório, a letalidade policial seguiu tendência inversa à dos homicídios.
Isso desafia uma tese comum: a de que mais mortes pela polícia significam menos crime. Um ano de dados não prova causa. Mas, em 2025, a queda dos homicídios coincide com mais mortes pela polícia. O argumento de que a força letal traz segurança precisa explicar esse dado.
O perfil das vítimas também é claro. Segundo o Anuário, citado pela SBT News, 82% das vítimas de intervenções policiais em 2025 eram negras. A taxa de letalidade entre pessoas negras foi 3,5 vezes a de pessoas brancas. Uma polícia que deve proteger a população falha justamente com quem mais é atingido.
A diferença entre estados também é grande. O Amapá teve a maior taxa do país, com 17,1 mortes por 100 mil habitantes. A Bahia vem em seguida, com 10,6, segundo o Anuário, conforme a Lusa.
O argumento contrário e o controle
O argumento contrário merece resposta. A polícia enfrenta violência real. Reportagens sobre o Anuário dão números diferentes para os policiais assassinados em 2025: 133, segundo a DW, ou 139, segundo o Jornal de Brasília. Também houve 110 suicídios de policiais no ano, segundo o Jornal de Brasília.
A resposta não é tirar proteção de quem age bem. O policial que cumpre a lei precisa de regras claras e da apuração de cada morte. Sem isso, ele divide a farda com quem abusa e fica sob suspeita geral.
O segundo argumento é “bandido bom é bandido preso”. A prisão é o caminho que a lei prevê, e nenhuma das medidas aqui impede prender quem comete crime. O que se questiona é a morte sem apuração, que não produz justiça nem prova.
Em 2023, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), manteve a ordem para o Rio. A decisão faz parte da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, ação que pede ao STF corrigir a violação de um preceito fundamental da Constituição. A determinação exige câmeras nas fardas, GPS e gravação de áudio e vídeo nas viaturas, segundo o Poder360.
Em setembro de 2023, a ConJur informou que as polícias Civil e Militar do Rio não usavam as câmeras como o STF determinou. Segundo a mesma reportagem, a Defensoria Pública fez 90 pedidos de imagens de câmeras e viaturas entre abril e julho daquele ano. Só oito foram respondidos. Entre essas respostas, três traziam links sem imagens e quatro eram gravações manipuladas.
Câmeras não resolvem tudo. A revisão sistemática de Lum e coautores, publicada em 2020, diz que “there remains substantial uncertainty about whether BWCs can reduce officer use of force”. Em português, ainda há incerteza considerável sobre se as câmeras corporais (BWCs) reduzem o uso da força pelo policial.
Mesmo assim, a gravação é o que permite apurar. Depois da Operação Contenção, que deixou mais de 120 mortos em outubro de 2025, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) recomendou mais câmeras, mais fiscalização e mais treinamento, segundo a Agência Brasil.
O que diz o governo do Rio de Janeiro: segundo a Agência Brasil, o governo estadual “pretende concluir o processo de licitação para novas câmeras corporais” até março de 2027. A informação foi publicada em 20 de outubro de 2026.
A polícia que mata mais, sem controle, não protege mais. Em 2025, o país teve menos homicídios e mais mortes causadas pela polícia. Quem mais perde é a população atingida, e também o policial que cumpre a lei.
Uma força pública forte é a que pode ser vista, gravada e cobrada. O caminho que o STF e o MPRJ já apontaram é gravar, fiscalizar e responder por cada morte. Só assim a farda protege a todos.
Como fizemos: Usamos os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do FBSP, divulgado em 23/07/2026, conforme a página do próprio Fórum e as reportagens listadas em Fontes, acessadas em 23/10/2026. Não conseguimos abrir o PDF completo, então os números vêm de reportagens que o citam. Onde as fontes divergem, como no total de policiais mortos (133 ou 139), dizemos isso. Não fizemos cálculos próprios. A relação de 3,5 vezes entre taxas e as taxas por estado são as informadas pelas reportagens. Um ano de dados não mostra causa.
Fontes
- Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 — Fórum Brasileiro de Segurança Pública (acesso em 23/10/2026)
- As duas faces das mortes violentas no Brasil: feminicídios e ações policiais — Agência Pública (23/07/2026)
- Polícias brasileiras mataram 6.602 pessoas em 2025, recorde histórico — Observador (Lusa) (23/07/2026)
- Negros morrem 3,5 vezes mais em ações policiais que brancos — SBT News (23/07/2026)
- Letalidade policial e feminicídios batem recorde no Brasil — O Povo (DW) (24/07/2026)
- Brasil reduz mortes violentas, mas letalidade policial aumenta e suicídios de agentes seguem elevados — Jornal de Brasília (23/07/2026)
- RJ pretende contratar câmeras corporais até março de 2027 — SBT News, com informações da Agência Brasil (20/10/2026)
- Fachin mantém ordem de uso câmeras corporais por policiais do RJ — Poder360 (06/06/2023)
- Reportagem da ConJur sobre a ordem do STF às câmeras da polícia do Rio — Consultor Jurídico (21/09/2023)
- Body-worn cameras’ effects on police officers and citizen behavior: A systematic review (Lum et al., 2020) — Campbell Systematic Reviews, via PMC (acesso em 23/10/2026)



